
A redacção do Afrontamentos tentou resistir-lhe mas não conseguiu. Simplesmente tivemos de sucumbir perante a opinião pública, qual espiral do silêncio!
Na realidade, aquilo que mais nos espantou foi a contínua adesão do público – de todas as idades, credos e cores – a esta tripeirinha de gema.
Ora, o fenómeno “Floribella” – sim, é da Floribella que falo – liderou as tabelas de venda de música em Portugal, com a edição do seu álbum, “Floribella”, em meados do passado e saudoso ano de 2006. Essa liderança foi de tal forma incontestável e indubitável que nem a super-banda do momento, os D’ZRT pois claro, a conseguiram desalojar do alto da cátedra da nossa indústria musical com o seu segundo álbum, “Original”.
Pois bem, tivemos de ouvir “Floribella”. Sentimo-nos coagidos pela sociedade. Sentamo-nos. Ligamos a aparelhagem. Carregamos no Play. E….. fez-se luz, ou melhor, fez-se “flor”! Fomos conquistados, e as nossas almas ficaram rendidas, à força das palavras de Luciana Abreu. De facto, há demasiado tempo que Portugal estava privado de uma tão grande expressão artística feminina. Creio mesmo que, desde o “Pisca Pisca” de Ruth Marlene que a nobre nação lusitana não assistia ao nascimento de uma tão cintilante estrela musical.
A sua voz é arrebatadora, um pouco como Mónica Sintra no seu início – o timbre e o ritmo são bastante parecidos aos da bombeira – e as músicas que canta, a maioria escrita por esse letrista de renome, Miguel Dias, são das coisas mais belas e profundas que saíram para o nosso mercado nos últimos anos.
Luciana, ou melhor, Flor e a sua banda arrebatam-nos logo aos primeiros acordes de “Tic-Tac”. A metáfora que esta música representa entre aquilo que a escassez e a diluição do tempo significam para um jovem apaixonado que luta contra todos os ardores para conseguir satisfazer a sua paixão, aquele desejo que o move e orienta pela vida. Talvez desde “Sometimes”, de Britney Spears, que a música pop não contemplava tamanha demonstração da necessidade em amar.
Mas, se “Tic-Tac” é um caso perfeito de angústia e desejo de amar, “E assim será” apresenta-nos como a manifestação da resignação pelo estado de coisas, um pouco à imagem daquilo que Paris Hilton tentou transmitir com a sua breve carreira musical. É um modelo, pouco convencional, que pretende evidenciar a apatia do espírito humano quando o seu coração é traído.
“Vestido Azul” é outro caso de tristeza e desilusão. A amostra de dor presente no verso “Mas não chegaste e sem o teu amor/o meu vestido azul perdeu a cor/e sozinha nesta rua/o tempo para mim… parou”. Como se pode depreender deste pequeno excerto, o drama pela perda do amor e da paixão causa na intérprete uma melancolia evidente pela sua perda de “cor” e pelo seu murchar perante a realidade. Na realidade, a ausência de paixão e aventura causa no solitário coração humano uma letargia imensa, personificada pela paragem no tempo. Aliás, repare-se nas vezes que a Flor usa metáforas com o tempo para representar a duração – insuportável – do seu desgosto amoroso.
Porém, apesar do aspecto melancólico que o álbum parece comportar – um pouco ao estilo da Ágata, no seu auge, claro – “Floribella” termina com a demonstração máxima de independência e emancipação. “Pobre dos Ricos” é um hino para as novas gerações, uma faixa claramente inspirada no manual socialista da igualdade e da necessidade em preservar o sentimento de afeição entre o homem, sobre as vantagens do “capital”. Claramente, “Não tenho nada, mas tenho, tenho, tudo/Sou rica em sonhos/mas pobre, pobre, em ouro/Mas não importa, pois só por ter dinheiro não compro amigos, as estrelas o amor verdadeiro”! Ora, neste trecho a cantora passa a mensagem que irá guiar toda uma nova geração de portugueses no futuro: o essencial é o afecto e a necessidade em preservar a bondade perante os homens. O dinheiro é apenas um acessório nada determinante para a condução dos destinos da humanidade. O amor e a amizade é que contam.
Por isto, e por tanto mais, “Floribella” é dos mais belos e puros álbuns da história da música portuguesa. A voz de Luciana Abreu – a nossa borboleta – e as letras de Dias prendem-nos desde a primeira à última faixa. Confessamos que estávamos algo cépticos em relação a este fenómeno da cultura pop, mas depois de o escutar uma e outra vez não pudemos deixar de ficar indiferentes à sua força e magia. De facto, Luciana leva-nos para um Mundo à parte, um Mundo paralelo e alternativo, onde o sonho e a fantasia são reis. Parabéns!
A redacção do Afrontamentos atribui ao disco “Floribella”, de “Floribella e a sua banda”, cinco estrelas afrontadas!