O Terrível Mistério do nº 52 da Rua António Marinho, parte X

Esta é a continuação da história que foi, até este momento, relatada aqui.

Eu não acreditei na história, mas a dor pela morte de Sandra era tão forte que senti uma tentação em aceitar a explicação daqueles dois indivíduos. Desci as escadas, entrei em casa, deitei-me no sofá da sala, abri a garrafa de whisky e comecei a beber. Adormeci.

Acordei com alguém a bater furiosamente à porta. Eram Elsa e Carlos. Abri. Começaram os dois a gritar comigo pelo facto de ter contado tudo o que vira a Daniela, assim como tudo quanto Elsa me tinha contado. Pelas suas reacções percebi imediatamente que a relação deles ia muito para além dos seguros, e fiquei com pena de Daniela… assim como tinha pena de Rome, por esta se encontrar casada com um bode. Agora que já não tinha a Sandra, tinha ideias de levar estas duas mulheres comigo para muito longe. Foi aí que reparei num pormenor de Elsa. Ela estava a usar o anel que vira na mesinha de cabeceira de Miguel. Perguntei-lhe se aquele anel não pertencia a Miguel, e ela, algo embaraçada, confirmou essa situação mas, ao mesmo tempo, garantiu que tinha ficado para ela durante o divórcio. Carlos também o garantiu. Mas isso não explicava como eu o tinha visto no dia anterior no quarto de Miguel.

Assim que eles saíram,  fui à cozinha e vi os bilhetes de Rome. Liguei-lhe. Ela já sabia do que se sucedera e aceitou vir até minha casa para um “chá das cinco”. O marido tinha saído e ela estava só. Tocou à campainha. Abri a porta, e lá estava ela, mais deslumbrante do que nunca. Vestido curto, preto, com decote a mostrar o essencial – mas não tudo – e a revelar as suas belas pernas. Apesar do tempo ser de luto, não consegui resistir ao pensamento lascivo, ao desejo. Convidei-a a entrar. Ela elogiou a minha decoração. Sentou-se na poltrona da sala. Servi o chá. Ela bebeu-o e elogiou-o. Depois, contei-lhe tudo. Que a tinha visto com a chave, que a Elsa andava com o Carlos, que a Sandra não se podia ter suicidado, do ar estranho do marido. Tudo.

E, enquanto que eu lhe contava isto, ela limitava-se a engolir o chá. Gole após gole. Quando acabei, levantou-se, pegou nas minhas chaves trancou a porta e fechou também a da sala. Sentou-se de novo. Bebeu mais um gole. Ela transpirava solenidade e graciosidade nos seus movimentos, e era tão bom olhar para ela que eu não me importava de aguardar por uma resposta.

Quando acabou o chá, virou-se para mim e começou: “O que é que você diria se soubesse que tudo o que aconteceu aqui nestes últimos dias foi uma conspiração desde o início? Uma conspiração de todo o prédio?” Respondi-lhe que diria que ela era maluca.

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